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by Lau Tsé-tsé, o filósofo do sono

Cena 14

July9

(Trilha: barulho do ventilador soprando as idéias para fora da janela)

Praticar o desapego no seu aspecto mais amplo é um exercício zen de viver de uma forma contrária ao que nos foi imposto pela sociedade capitalista e também machista.
Em detrimento do “viver melhor” seguimos uma série de regras e paradigmas de novela inquestionáveis e limitantes que cegam e constróem sentimentos nocivos, porém latentes, da própria natureza humana.

O desapego é um desafio. E esse desafio possui níveis e escalas que são completamente variáveis em cada situação e para cada pessoa.
Ao mesmo tempo em que um objeto ou ação pode ser mais relevante do que a existência de uma pessoa conhecida, o contrário pode ser também verdadeiro para um outro ser ou ponto de vista.

E qual é o método para praticar o desapego?
Talvez as pessoas frias e calculistam tenham mais facilidade em encarar essa tarefa de forma mais simples. Aos mais emotivos, sofrimento.

A vida não é cartesiana. Mas a mentalidade sofrida ou a objetividade das pessoas pragmáticas constrói uma proteção confortante como um colete à prova de balas. O tiro machuca mas não mata.

Essa pseudo-imortalidade da postura gélida, inconscientemente anula a emotividade e torna a vida menos vida.

O desapego é um tipo de morte.

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Cena 13

July9

(Braços sobre a mesa apoioando a cabeça com os punhos cerrados. Pensativo e inoperante)

Eu acredito que as únicas coisas que possuem uma estreita ligação com a minha personalidade aqui nessa casa são os meus livros. Todos eles.
Essa bibliografia acaba, de certa forma, moldando minhas características pessoais e o contexto de minha existência. Claro, o homem é produto do meio. Ou melhor: você é aquilo que você consome.

Vejo outros objetos e simulando uma situação de real necessidade, verifico que todos eles são supérfluos e de maneira alguma entrariam na minha lista hierárquica de necessidades.
Os livros representariam uma pequena porção da construção do ser. Modus operandi.

Quero sair desse apartamento. E as únicas coisas que levarei daqui serão minhas roupas (nem todas elas) e meus livros.

Dessa forma saio daqui levando minha proteção e a formação de meu caráter por completo.

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