Cena 06
(Fade in…olhando para a estante no escritório de casa. Gira a cadeira em direção às prateleiras e pensa…)
Algumas vezes na minha vida eu penso na quantidade enorme de informações que eu preciso digerir. Não é que são obrigatórias…mas me faria muito feliz se eu conseguisse ler tudo o que eu tenho interesse. Mas eu sei que isso é uma coisa completamente impossível para o meu contexto atual. Já seria muito dificil se eu só fizesse isso em todas as horas do meu dia.
Penso que poderei chegar em uma situação mais próxima disso quando eu estiver aposentado. Porém, sei que não sou de ficar parado e por isso também acredito que vou arrumar alguma coisa pra fazer e não vou concretizar esse meu sonho de consumo intelectual e de leitor.
Fazer o que, né? A vida tem dessas coisas.
Mesmo assim, eu continuo comprando livros e mais livros, guardando referências, bookmarks, e-mails, tudo o que eu identifique como possível conteúdo que mereça a minha leitura posterior, que raramente acontece.
Percebo também que essa “agonia” literária se estende para outras mídias. Guardo milhões de mp3, filmes que eu baixo, arquivos, e-mails de 1995, quando a internet começou no Brasil e eu comecei a ter acesso. Loucura total. Um colecionador de dados? Uma biblioteca sem leitores? Um repositório de dados que talvez jamais sejam usados?
- Pra que? (sombrancelhas levemente levantadas e uma postura de dúvida nos ombros).
Para atender ao apego material transferido para o mundo digital. Será que o fato de poder armazenar tanta informação não seja uma transferência da imposibilidade de armazenar na vida aqui fora? Será que é uma atitude compensatória? Será que é uma forma mesquinha de deter um conhecimento que na verdade são apenas dados ainda?
Será que eu não estou agindo da mesma forma que a igreja católica medieval?
Informação é poder? E dados puros e não aproveitados? São o que?
Talvez a onipresença digital diminua um pouco essa neurose de armazenamento. Tudo estará disponível online…e sua onipresença permitirá acessar os dados instantaneamente.
Mas esses dados estarão armazenados aonde? Na própria rede? Você confia?
Confia em quem? Em Deus ou no Google?